domingo, abril 26, 2026

Discurso oficial no dia 25 de abril, como líder da bancada do PSD na Assembleia Municipal

 Caros munícipes,

No passado dia 25 de abril de 2026 fui convidado a intervir na Assembleia Municipal extraordinária, como parte das celebrações do 52.º aniversário do 25 de abril de 1974 e do 50.º aniversário da Constituição da República Portuguesa.

Aqui deixo a gravação vídeo do meu discurso e a sua transcrição.


Bom dia!

Cumprimento o Senhor Presidente da Assembleia Municipal, o Senhor Presidente da Câmara Municipal, os Vereadores, os Presidentes de Junta, as Senhoras e Senhores Deputados Municipais, as autoridades civis e militares, os profissionais que aqui estão a trabalhar, todos os presentes.

Mas dirijo-me a todas pessoas ansianenses, para celebrar o 25 de Abril.

Já aqui foi dito, também o digo, que é para aceitar a responsabilidade de protegermos e darmos continuidade a um aspeto que dá o nome ao 25 de abril: a liberdade.

Foi conquistada há 52 anos; e agora faz 50 anos, temos também o final desse processo: temos a Constituição democrática. 

Agora é muito fácil repetir palavras - tenho-as aqui todas apontadas: liberdade, democracia, pluralismo, tolerância.

Mas o difícil é praticá-las. 

É que, no dia a dia, facilmente e cada vez mais discordamos muito profundamente uns dos outros. 

É muito difícil defender estas palavras quando a opinião não agrada, quando a crítica incomoda, quando a alternância acontece, quando há de facto adversários políticos. 

Só que a liberdade que nos deu o 25 de Abril não tem donos. Não é para ser guardada num discurso anual inócuo… Até agradeço ao anterior presidente da Assembleia Municipal, aqui presente: não é para ser guardada em formol. Agradeço-lhe, lembro-me de ter falado dessa forma e acho muito bem.

Mas temos agora a necessidade de viver o processo democrático de Abril todos os dias: nas escolas, aqui na Assembleia Municipal, nesta Câmara Municipal, nas juntas de freguesia, nas empresas, nas associações, em cada conversa. 

E queria dizer-vos que esta liberdade nunca esteve assegurada; e não está assegurada. 

A sua defesa tem de ser diária e pertence-nos a todos. 

Eu vou regressar a 74: em 1974 no 25 de abril [correção: 1 de maio] o meu pai discursou da varanda deste edifício, até desfalecer: teve que pedir para o agarrarem quando chegou ao final. Depois foi fundador do PSD em Ansião, foi vice-presidente da Câmara Municipal no período imediatamente a seguir, e viveu a esperança desses tempos.

Mas também conheceu as dificuldades de assegurar a liberdade num período em que a liberdade estava a aprender o que é que era isso: ser liberdade.

E nesses tempos, acho que é icónico, teve uma arma apontada à cabeça no Fundo da Rua.

Já não se lembra qual foi a discussão, mas lembra-se do motivo. O motivo foi: "Falas muito".

Eu não digo isto para abrir feridas antigas, tudo isto está no passado. Mas é para lembrar uma coisa simples: é que aquilo que nessa altura começou com uma luta continua até hoje, e temos que a manter.

A democracia portuguesa não nasceu arrumadinha, limpa, pacífica... em todos os momentos.

Teve confronto, teve excessos, teve coragem. 

E houve quem, nessa altura, tivesse de defender a liberdade não em abstrato, mas com risco pessoal, com pressão social, com intimidação concreta. 

Por isso, quando hoje celebramos Abril, não devemos fazê-lo como quem se coloca assim, acima dos outros, donos de Abril.

Devemos fazê-lo com humildade. 

A liberdade não é propriedade de nenhum partido.

Não pertence a nenhum movimento, a nenhuma maioria...a liberdade não pertence, também, a nenhuma minoria. A liberdade pertence ao povo português. E aqui em Ansião, pertence aos ansianenses.

Esta Câmara não é de quem a governa. A Câmara é de Ansião. A Assembleia Municipal não é de quem ofende ou faz juízos de intenção para condicionar a liberdade dos adversários e tentar, dessa forma, ficar com a palavra: é dos cidadãos que nela aqui estão representados. 

Portanto, o 25 de Abril não é de quem grita mais alto, ou mais se enfantocha a dizer: “liberdade, liberdade!”. Não, não: falar é fácil. O 25 de Abril é de quem aceita que o outro possa pensar diferente, sem por isso ser menos pessoa. É de quem distingue que aquilo que o outro diz pode ser horrível, mas a pessoa não é horrível. 

O que nós dizemos não é quem somos. É muito importante não o esquecer. 

A democracia tem hoje inimigos evidentes: a violência, a intimidação, o fanatismo, o extremismo, a mentira deliberada, e mais uma vez: a tentativa de desumanizar o adversário. 

Mas tem inimigos mais subtis, que nós toleramos e achamos graça: o hábito de chamar “facho” ou “esquerdalho” a quem discorda de nós; o vício de achar que só alguns é que têm legitimidade democrática; ou a tentação de travar a liberdade: tratá-la como se fosse um certificado passado por família política a outra.

Isso não é Abril. Isso é contrário... Isso é o contrário do espírito de Abril.

Discordar é democrático. Fiscalizar é democrático. Criticar é democrático. Manifestar-se é democrático. Votar livremente é democrático. 

O que não é democrático é transformar adversários em inimigos. O que não é democrático é aceitar a liberdade apenas quando ela confirma o que nós já acreditamos.

E, infelizmente, nós vivemos tempos em que eu tenho que vir aqui voltar a dizer isto.

No país, na Europa, no mundo, vemos crescer ódio, radicalismo, ressentimentos... e eu diria algo ainda mais grave, porque esses são fáceis de combatermos.

Crescem simplificações perigosas. Há quem queira substituir a liberdade pelo medo, pelas repostas simples ou fingir que tem soluções simples. 

E quando a violência entra na vida política, deve servir de alerta a todos. 

Não é por estarmos longe que não possa acontecer em Ansião. Não interessa se vem da direita, da esquerda, do centro. Geralmente vem de quem acha que está acima de todos. Uma arma apontada em 74, ou 75 ou 76, ou em 80... o meu pai felizmente já não... já [se] esquece disso, nem se lembra do ano em que aconteceu.

Ou um cocktail molotov atirado contra uma manifestação, agora em 2026. 

Isto não é uma opinião mais exaltada. Uma ameaça não é um debate, uma intimidação não é intervenção cívica: a violência política é sempre uma derrota da democracia. 

Por isso, a melhor homenagem que podemos prestar ao 25 de Abril é comprometermo-nos com uma cultura democrática mais exigente.

Significa reconhecer que Abril, também, precisa que as pessoas parem de falar só, e juntem ao falar o ato e serem eficazes. 

E aqui no poder local também. Um governo local que passe a ser eficaz. 

Cumpre-se um Abril quando uma estrada é arranjada, quando uma família encontra resposta, quando uma criança é protegida, quando uma associação é ouvida, quando uma freguesia não é esquecida, quando a gestão pública é feita com rigor e sentido de serviço. 

Ansião precisa de uma democracia viva, não apenas de uma democracia de cerimónias. 

Precisa de participação, por isso tanto gostei de ver as crianças das escola vir ontem à Assembleia Municipal e gosto tanto de ver tanta gente nestas bancadas. 

Precisa de debate, precisa de exigência, precisa de capacidade de ouvir. 

E precisa de memória, mas também de futuro. Precisa de honrar quem abriu caminho, mas também de dar razões aos mais novos, que aqui estão, para acreditarem que a política vale a pena. E talvez este seja um dos maiores desafios do nosso tempo: mostrar às novas gerações que a democracia não é apenas o direito de votar de quatro em quatro anos. 

É o direito de discordar sem medo. É o direito de participar sem pedir licença. É o direito de criticar sem ser rotulado.

É o direito de servir a comunidade sem ser tratado como inimigo. Eu nesta Assembleia Municipal já fui chamado de ignorante, já fui chamado de burro, já fui chamado de... ...qual foi a última? Qual fui a última...? De intelectualmente desonesto... enfim. 

Eu tenho opiniões: não devo ser um inimigo. E assim penso para os outros. 

Em nome da bancada do PSD, deixo hoje aqui, para terminar, uma palavra de compromisso. 

Defenderemos Abril defendendo a liberdade de todos. 

Defenderemos a democracia focando o escrutínio e o debate nos factos, não em juízos de valor sobre as pessoas. 

Defenderemos Ansião trabalhando a sério - a sério, mesmo - para que a alternância democrática se traduza em melhor serviço público, mais proximidade, mais rigor e mais futuro. 

O 25 de Abril ensinou-nos que nenhum poder é eterno. 

Nenhuma maioria é dona da verdade.

Nenhum partido é dono da liberdade. 

Nenhum cidadão deve ter medo de pensar, de falar, de votar ou de participar. 

E só desejo que saibamos, em Ansião, continuar, como temos estado (e aqui eu acho que não devemos ser pessimistas, mas sim otimistas, e realistas): continuarmos a saber estar à altura desta herança. 

Viva o 25 de Abril.

Viva a democracia. 

Viva Ansião.

Viva Portugal.

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